SHEAR YAAKOV
Remanescente de Jacó
... e toda a terra saberá que há D-us em Israel.

Fé e Obras
na Igeret Yaakov


A aparente tensão entre fé e obras tratada na Igeret Yaakov tem levado muitos teólogos a interpretarem ambas como opções que se excluem mutuamente, gerando dois pólos de referência de vida religiosa. Essa aparente dicotomia, embora fortemente enraizada no pensamento da cristandade e manifesta nas homilias eclesiásticas, pode e deve ser questionada.

Em sua igeret, Yaakov escreve a destinatários judeus messiânicos (Tg 1.1) sobre diversos assuntos práticos da vida judaica, dentre os quais a questão da fé e das obras, e sua inter-relação e importância para os seguidores do que denomina "religião pura e sem mácula" (Tg 1.27). Embora a grande maioria dos teólogos cristãos se fundamentem no falso pressuposto de que a Igreja seja o novo povo pactual de D-us em substituição a Israel para descaracterizar os destinatários como judeus, embasando a possibilidade de que “doze tribos” não indique um público leitor judaico, rejeito essa abordagem por apresentar pelo menos duas falhas graves.
Primeiramente se apóia na herética doutrina da substituição, ignorando que o fato de ramos de oliveira brava terem sido enxertados na natural não significa que esta tenha sido rejeitada e substituída por aquela. A fé de alguns ramos os mantém na oliveira e a falta de fé de outros os exclui. Trata-se de um estado determinado pela fé pessoal e não por uma suposta decisão divina de substituir um povo pactual por outro (Rm 11.19,20).
Em segundo lugar seria uma deslealdade a princípios básicos de hermenêutica desconsiderar o sentido literal de Tg 1.1 e supor que “as doze tribos que se encontram na diáspora” não sejam exatamente as doze tribos que se encontram na diáspora (Galut) – judeus fora da Terra de Israel. Através de sua igeret Yaakov ensina diretamente a esses seus destinatários, e também indiretamente a todos os interessados na Verdade das Escrituras, o verdadeiro lugar que fé e obras devem ocupar na vida judaica, de forma harmônica e integrada.

As afirmações de Yaakov sobre a relação íntima entre fé e obras são um antídoto contra os que apregoam que a Brit Chadashah oferece uma graça barata, uma salvação pela mera afirmação mental de certos fatos ou idéias sobre Yeshua, ou por um bom sentimento em relação a D-us. Essa fé sozinha, desacompanhada de ações que a comprovem é morta e inoperante, não melhor do que a própria crença estéril que até os demônios possuem por conhecerem o mundo espiritual (Tg 2.19). Fé é mais do que acreditar intelectualmente em algo, reconhecer sua realidade ou admitir sua existência. A fé judaica implica em confiança segura, entrega e compromisso com D-us. Essa fé gera obras santas, em oposição ao mero conhecimento mental de fatos e idéias, ou à adesão a um credo. Se alguém tem verdadeira confiança, fé e crença genuína e sem reservas em relação a D-us, então, e só então poderá ser fiel e produzir as boas obras. Essa fé e confiança implicam necessariamente em fidelidade e obediência.
Levando em conta o conceito judaico de fé completa (emunah shlemah), brilhantemente expresso nos 13 princípios de fé de Maimônides, vemos que em sua crítica Yaakov se refere não a toda a fé, mas a uma parte dela, ou seja, a confessional e intelectual. Essa referência a uma fé parcial e incompleta fica evidenciada pela construção gramatical, adotando sempre modificadores restritivos: semelhante fé (Tg 2.14), fé por si só (Tg 2.17), fé sem obras (Tg 2.20,26) e fé somente (Tg 2.24). Yaakov deixa claro que é pelas ações/obras que a fé se torna completa e se consuma (Tg 2. 22).

Fruto tangível da vida judaica, as boas obras são estimuladas em toda a Bíblia como ponto de contato entre a crença, em certa medida subjetiva, e a objetividade da prática, capaz e eficaz para atingir o próximo de modo relevante. O verdadeiro judaísmo é identificado através das obras, seja na exortação de Yochanan HaMatbil, que não se contentava com um arrependimento retórico e superficial, mas exigia frutos desse arrependimento (Mt 3.8), ou na promessa da distribuição do galardão em retribuição vinculada às obras de cada um (Ap 22.12). Ao escrever a Tito, Rabi Shaul exorta aos "nossos" a aprenderem a distinguir-se nas boas obras a favor dos necessitados para que virem a se tornar infrutíferos (Tt 3.14). Até nas suas colocações sobre como o homem deve se relacionar com a Torah, a Sagrada Lei de D-us, Rabi Shaul relaciona a justificação aos que praticam a Lei, em contra-posição aos meros ouvintes da mesma (Rm 2.13).
Esses constantes alertas bíblicos quanto à importância das obras estabelecem um contra-ponto em oposição a uma fé indolente e acomodada, auto-satisfeita com reflexões mais ou menos intelectuais, não oriundas da sabedoria de Pv 9.10, porém artificial e intensamente mental. Esse tipo de fé, estéril e morta, não vincula aquele que a possui com o poder de D-us, de nada aproveitando para si ou para o próximo quando este necessita de ajuda efetiva.

Yaakov apela para uma religião pura que invariavelmente vai frutificar em obras. A oposição, portanto, não está entre fé e obras mas entre fé com obras e fé sem obras. Mas "fé sem obras" seria realmente possível? Qual é a fé que não produz obras? Na verdade, a fé plena não necessita do acréscimo de obras pois por sua própria natureza genuína já as inclui.
Se alguém presumir que a fé intelectual sem as boas obras pode salvá-lo, respondendo afirmativamente à questão de Tg 2.14, em Tg 2.18 Yaakov introduz uma situação imaginária onde alguém defende essa posição e lhe responde: "Mostre-me esta fé sem as ações. Você não é capaz de fazê-lo, pois a fé genuína é percebida não através da fala mas através das obras provenientes dela. Eu te mostrarei minha fé pelas minhas ações, e você terá que concluir que eu não estou tentando salvar a mim mesmo pelas minhas obras, mas minhas obras surgem da minha fé e provam que essa fé é genuína."

Em Tg 2.21 Yaakov se reporta ao exemplo de Avraham avinu, que foi declarado justo por suas ações. Sua fé foi revelada através de suas ações. D-us já sabia da fé de Avraham em potencial mas seu desejo de sacrificar Ytzchak tornou essa fé concreta e trouxe-o para um mérito pleno perante D-us - Agora EU sei... (Gn 22.12). Assim, Avraham foi considerado justo por suas ações (Gn 26.5).
Ao falar sobre si mesmo, e deixando-nos o ensinamento, Yeshua HaMashiach afirma que um amigo não é somente aquele que declara sua lealdade mas aquele que a prova pelos seus atos. Ele disse que ninguém tem mais amor por uma pessoa do que aquele que dá a vida por seus amigos. "Vocês são meus amigos se fizerem o que eu vos mando" (Jo 15.13-14). Ao ofertar Ytzchak, Avraham não se limitou a uma posição mental, mas evidenciou sua fé dando a vida de seu filho em obediência ao mandamento de D-us. E assim Avraham foi chamado amigo de D-us (Tg 2.23).

Podemos nos enganar e confundir a fé verdadeira com a falsa, e as obras sinceras com as hipócritas. Mas o que D-us pede de nós? Fé ou obras? Na verdade, ELE não nos coloca essa opção, mas nos pede ambas, fé e obras. A dicotomia é humana, não divina. A verdadeira fé, naturalmente gera boas obras. O tipo de fé que agrada a D-us é aquele vivo, que redunda em boas obras, e o tipo de obra que ELE aceita é aquele produzido pela autêntica fé biblicamente respaldada, como uma árvore frutífera gerando seus frutos. Ao sermos confrontados com o quietismo, na sua alegação de que as obras são desnecessárias, precisamos lembrar de Yaakov e analisarmos se essa "fé" que não produz obras seria a verdadeira fé judaica.


Nota: Considero a forma usualmente adotada do nome do autor desta igeret - "Tiago" - inadequada e infiel tanto em relação ao nome original em hebraico (Yaakov) quanto à transliteração do grego (iakobos) encontrada nos textos da Brit Chadashah. Há várias evidências sobre as motivações anti-judaicas que levaram os tradutores cristãos a dissociarem a Brit Chadashah do seu lastro judaico, fazendo-os optar por “Tiago” ao invés de “Jacó”, mas isso foge do propósito deste estudo.

Em Yeshua,
chessed v’shalom,
Rabi Yehudah Ben Yaakov

SHEAR YAAKOV
... e toda a terra saberá que há D-us em Israel.


©5764/2004 by SHEAR YAAKOV